Sentiu na pele. Na flor da alma, mas como um homem honrado, não perdeu a calma. Faltavam poucas horas para o fim. Para um repentino final do que tinha sido um marco na sua vida, uma história sem igual. Foram anos de emoção. De erros e acertos, entre tantos momentos em que as emoções afrouxaram e o bolso só deu aperto.
Quando viu respirar o relógio em mais um tique-taque, acabou quase perdendo o centro. O equilíbrio. A falta da razão. Bateu uma dor no peito. Uma vontade de perder o respeito pela hierárquica condição de que os que vasculham o dinheiro e o poder pensam que podem tudo, mas não podem Hoje estão; amanhã, nada serão. Talvez no máximo um verbete de uma enciclopédia perdida numa estante de uma família de classe média.
Abriu a primeira gaveta e começou a recolher as sobras do que era. A documentação que trouxera quando abraçou o emprego. A cartilha que lera para perder o medo de não ser aproveitado. A primeira foto que tirou quando estava empregado. A festa de Natal. Outra festa que acabou mal. Os dias em que viraram a noite, fazendo das palavras açoite, e do chicote, um incentivo. Percebeu que estivera vivo. Valentemente lutando pelo que mais desejava.
Na segunda gaveta, encontrou lápis, laudas, canetas, arquivos mortos que de nada mais servem. Não prestam. Têm utilidade e sempre terão para quem escreve, para quem gosta de fazer de letras textos com emoção. Encontrou, ainda, espremido entre aqueles vãos de madeira, o primeiro contra-cheque, amarelado, que recebeu quando moleque. Um tubo de pasta de dente. Uma escova velha. Pilhas para um rádio que nunca sintonizara outra estação, senão aquela que ouvia pura e tão somente para não perder informação.
Na terceira gaveta, tudo era mais pessoal. Matérias publicadas com seu nome, naquele jornal. Com cor de mapa de tesouro de cinema. Amarelo, encardido pelo tempo. Eram suas favoritas, antes do advento da computação. Guardava. Hoje, copiava. Mostrava. Hoje, não mais. Se bebia sozinho, na era da informática não mais assim fazia. Simplesmente se embebedava pela solidão de quem gosta de escrever. E lia.
Deu um suspiro. Olhou para a cadeira. A sua. Que foi sua durante dezenas de anos. Não tinha a prática de ser cigano, mas naquele instante preferia que tudo acabasse em um fim de aconchego. Sem emoção, sem adeus, sem apego.
Foi então que viu a foto que o inspirou. Lá no final da última gaveta, um retrato do qual tinha o maior ciúme. Calças curtas, cheio de sonhos e ilusões, supondo que a vida era um perfume. Na mão uma bola de meia, um conto escrito na areia, uma vaga lembrança que o incomoda. Se podia ter chegado até ali por que não mudar de vida?
Se havia contado tantas histórias dramáticas para seus leitores por que choramingar de amores e saudade se era hora de mudar?
Viu o relógio bater. Era hora de dar tchau. Escrever, de verdade, um ponto final. Ou apenas, com muita clareza e paciência, terminar mais aquela etapa da vida apenas com reticências...
*aos colegas e amigos do Monitor Campista, que honraram a fibra e a coragem de todo bom jornalista, mesmo com o final do jornal
Blog do Raul Sindicato da Notícia



4 comentários:
Não dá para aceitar a indiferença da TRADICIONAL(?)elite campista no que diz respeito aos nossos patrimonios.
Ficam nas colunas sociais contando suas estorinhas enquanto a história do povo e da cidade de Campos se escoa.
Não dá para aceitar a omissão dos que teriam voz para reverter a situação do Monitor Campista: CDL, ACIC, enfim as entidades de classe , os políticos , os clubes de serviço...
E o Secretário de Cultura de Campos?Se pronunciou a respeito?
O presidente da FCJOL?Sempre polêmico , criador de casos e de fatos?Por que omitir-se senhor jornalista Avelino?Não seria hora de um bom combate?
Belíssima crônica! É preciso ter sutileza para tratar de Perdas sem dramatizar...
Walnize
Ao anonimo das 22:29
Seria sim um bom combate, mas o problema é q o sr. ALEVINO ta na boquinha do governo igual ao Secretario de Educação Sr. ORACULO
Acho de com o Fechamento do Monitor o Nome da Fundação Cultural Jornalista Osvaldo Lima deveria mudar, pois o jornalista foi diretor por muitos anos do Jornal. vamos Mudar o nome para "AFUNDAÇÃO DESCULTURAL ALEVINO ORACULO DE CAMPOS - ADAOC
Que coisa feia oraculo e alevino v6 estao fazendo po csuds de empreguinho na prefeitura - falta de carater e companherismo
Olha Jane
Zeze Barbosa permitiu q o trianon fosse derrubado e ficou conhecido por isso e sumiu do mapa
o Garotinho meteu o pau nele e fez outro trianon
Agora Rosinha deixa fechar o Monitor e vai ficar conhecida por isso - o bom q se a regra for verdadeira ela vai sumir do mapa tambem.
falem mal mas falem de mim ( ah UM FALO)
Postar um comentário
Os editores deste Blog têm nomes e sobrenomes. Liberdade com Responsabilidade.