Walnize Carvalho
Fim de ano. Tempo de festas. - Já era para ele ter chegado, balbucio.
Vou ao portão de casa. Avisto a rua vazia e... nem sombra dele. Quero sua presença em “carne e osso”, sair por aí, de mãos dadas com ele...
Troco de roupa e saio à rua à sua procura.
Sigo o caminho olhando cantos e recantos em busca de pistas.
Passo por lojas. Pessoas acotovelam-se revirando roupas já amarrotadas e até espalhadas pelo chão.
O convite do vendedor na porta: - Entra, madame! Tudo barato, aproveite!... faz-me entrar e espiar por cima dos ombros daquelas pessoas. “Talvez ele esteja aqui”, murmuro. Mas qual, nem vestígio!
Várias idéias passam por minha cabeça: - E se fosse à delegacia mais próxima dar queixa do seu sumiço?Talvez um classificado no jornal : “procura-se” cairia bem... Dou de ombros, porque sei que é puro devaneio!
Chego ao centro da cidade.
Mergulho no mar de gente que vem em minha direção. Mesmo sufocada pela avalanche de sacolas, pacotes e embrulhos, meus olhos giram em todas as direções na vã esperança de encontrá-lo.
Ao longe avisto a Praça São Salvador. Uma profusão de cores e brilhos atrai-me ao cenário. Há indícios de que, finalmente, o descobri. Mas ao ver mendigos e cães destoando o ambiente constato que me enganei.
Em desalento entro na Catedral.
Sento-me no último banco. Cerro os olhos. Ao mesmo tempo em que sou embalada pelo canto gregoriano que ecoa no ar sinto um sussurro de paz em meus ouvidos.
Percebo que ele acaba de chegar e atinge em cheio o meu coração.
Pegando em minhas mãos confidencia-me: - Eu vagueio por aí... Às vezes esquivo-me, outras oculto-me e – quase sempre – deixo de ser notado. Mas estou sempre pronto a aparecer para os que querem me encontrar.
Assim falando, o ESPÍRITO NATALINO saiu apressado descendo a Vinte e Um de abril.



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